|
REFLEXÕES SOBRE O SEMINÁRIO APEB DE 03 DE MAIO DE 2011

Realizou-se no passado
dia 3 de Maio no Centro de Reuniões da FIL situado no Parque da Nações, em
Lisboa, o Seminário “Novos Desafios e
Perspectivas na Utilização do Betão”, organizado pela APEB, e que contou com
a participação de 140 pessoas provenientes de diferentes
empresas e entidades ligadas ao mundo da construção e em particular das
áreas do projecto, da arquitectura e do sector industrial do Betão Pronto.
Com um programa
recheado de intervenções técnicas especializadas apresentadas por parte de 9
oradores convidados distribuídos pelas sessões
da manhã e da tarde, o Seminário assumiu como fios condutores, quer a
abordagem da utilização dos betões como solução integral e arquitectónica
na concepção das edificações e respectivos revestimentos, com exposição e
diversificação da cor, forma e textura como argumentos predominantes,
quer o carácter sustentável que o material Betão possui efectivamente, e o
papel que as suas valências podem e devem desempenhar numa indústria
e sociedades em que o desenvolvimento sustentável, mais do que uma
exigência, se tornou presentemente uma necessidade vital para as novas
gerações.
É consensual
afirmar-se que, se existe um material que tem marcado decisivamente a
construção das sociedades modernas e o desenvolvimento
mais recente do património edificado em todo o mundo, esse material tem sido
sem dúvida o Betão.
Em Portugal, e
atendendo, quer à disponibilidade das matérias-primas subjacentes ao seu
fabrico, quer à natureza e cultura no projecto e execução
das obras de construção civil no nosso território, o Betão tem-se afirmado
como um material estrutural por excelência, estando, por isso, a sua
utilização essencialmente subordinada a pressupostos inerentes à satisfação
das exigências concretas de estabilidade e segurança das construções.
No entanto, o betão é
actualmente muito mais do que um material de índole estrutural, destinado a
participar e constituir a ossatura das edificações,
já que a tecnologia subjacente à sua concepção e aplicação permite
incorporá-lo também como material arquitectónico de revestimento aparente e
protecção das superfícies e paramentos das construções, conferindo-lhes
significativas mais-valias técnicas e estéticas associadas à durabilidade
intrínseca e potencial que o betão apresenta, e que pode contribuir de modo
efectivo para uma construção que se deseja sustentável e funcional.
É assim que os desafios
e perspectivas de futuro imediato que se colocam à indústria de betão
pronto, passam inevitavelmente pela aposta dos
principais agentes e responsáveis envolvidos no processo construtivo, nas
alternativas de utilização do betão, também como material de revestimento
final, alienando à sua vasta gama de aplicações, um variado leque de opções
de acabamento superficial e de forma, que incluem a cor e a textura
nas suas mais diversas soluções, desde a construção de edificações novas até
à própria requalificação arquitectónica e urbana das nossas cidades.
Nestes termos, o Betão
Pronto pode e deve ser encarado então, não apenas como um material de
construção cujo volume pré-determinado vai
cubicar as edificações que incorpora, mas também e de forma progressiva, a
solução construtiva e arquitectónica que dá resposta e concretiza
fisicamente as ideias estabelecidas na concepção e no projecto de qualquer
obra.
A indústria de betão
deve pois consciencializar-se que, face ao potencial de características que
o material apresenta e perante a actual conjuntura
sócio económica do mercado, pode disponibilizar ao mesmo diferentes soluções
tecnológicas em betão que satisfaçam, quer os requisitos de
ordem estrutural mais convencionais, quer também as componentes estética e
funcional das edificações, personalizando-as e garantindo sempre
que possível os objectivos de sustentabilidade associados ao seu bom
desempenho.
Foi com base nestes
pressupostos que a APEB decidiu organizar e realizar um Seminário técnico
com a duração de um dia, intitulado “Novos desafios
e perspectivas na utilização do betão”, no qual foram apresentados e
discutidos os cenários que se afiguram mais pertinentes, num futuro próximo,
para se assegurar o sucesso na diversificação das opções reais de
aproveitamento efectivo da versatilidade e adaptabilidade arquitectónica do
betão, e da extraordinária compatibilidade que o mesmo tem com as formas, as
cores, as texturas e até mesmo com outros materiais, em plena
harmonia e funcionalidade com o meio ambiente e com as sociedades em que
coabita.
Hoje, as crescentes
exigências de carácter político, social e ambiental que são inerentes à
missão sustentável dos materiais de construção impõem
requisitos aos mesmos, que, no caso do betão podem e devem ser satisfeitos
com notável competência e disponibilidade, através de soluções
integradas susceptíveis de dar resposta cabal às necessidades construtivas
das sociedades modernas.
As inovações
tecnológicas e o desenvolvimento de processos subjacente à produção do Betão
e nomeadamente nas vertentes do Betão Pronto e
Pré-fabricado, pavimentaram o caminho rumo a um futuro ambicioso e
prometedor, já que juntamente com a diversidade na concepção, surgiram
imensas alternativas à disposição da criatividade do projectista, sempre que
pretender optar pelo Betão: texturas superficiais, cores, translucidez,
porosidades, fotogravação, etc., quase tudo é actualmente possível quando se
desejam obter paramentos de betão aparente.
A arquitectura
contemporânea fica assim extraordinariamente enriquecida, e em particular, a
possibilidade de combinar o sentido estético e as
variadas características dos betões actuais com outras, abre um leque de
opções que tornam o betão como um “espécie camaleónica”, capaz de mudar
constantemente o seu possível aspecto, perfeitamente ajustado e enquadrado
no ambiente envolvente, quer em elementos exteriores (onde poderá
desempenhar simultaneamente as funções estruturais e de acabamento final),
quer em elementos interiores.
É assim possível aos
industriais organizarem e explorarem estruturas de base que propiciem aos
consumidores e utilizadores finais, as soluções
à medida, estabelecidas à partida para preencher determinados requisitos ou
funções.
Para além dos betões
auto-compactáveis e dos betões de elevado desempenho, dos betões reforçados
com fibras, e dos betões leves, vão surgindo
aqui e acolá novas designações e outros tantos betões inovadores, (alguns
ainda sem vocábulos na língua portuguesa), como são, por exemplo: os
betões translúcidos, betões reforçados com têxteis, betões fotogravados,
betões de autolimpeza, fotocatalíticos, “ultraporcrete”, “aerogel concrete”,
betões texturados, estampados, impressos, etc.
Estes “novos” betões
estão a criar inúmeras possibilidades para consubstanciar a criatividade dos
projectistas e deste modo produzir formas e dar
vida aos edifícios mais originais e inesperados que os arquitectos ousem
imaginar.
Neste contexto e face às
mudanças estruturais das sociedades mundiais, condicionadas pelas mais
recentes oscilações conjunturais de carácter
económico e sócio ambiental, as perspectivas de uma crescente utilização do
Betão requerem ajustamentos comportamentais e organizacionais
importantes por parte de todos os agentes envolvidos, com óbvio destaque
para os industriais e produtores do material. Assim, teremos que salientar
alguns desses factores, nomeadamente nos seguintes estratos:
- opinião pública e
“mass media” ;
- produtores e industriais;
- projectistas e promotores de obra;
- materiais,
- utilizadores;
- administração pública.
Relativamente à
opinião pública e aos “mass media” tem-se verificado um grau de percepção
deficiente e inadequado sobre o material betão e
respectivas valências ou mais-valias introduzidas pelo mesmo, não só nas
construções que integra directamente, mas também na própria sociedade
e comunidade envolvente. O seu nome e funções são muitas vezes
incompreendidos ou relegados para um plano qualificativo desprestigiante,
desabonando injustamente as suas extraordinárias mais-valias técnicas,
económicas e sócio ambientais. Importa pois corrigir esta situação com
celeridade, informando e reeducando o público e os órgãos de informação, e
incutindo ao nível das escolas a correcta percepção sobre o papel e a real
utilidade do material betão nos nossos dias e no mundo actual.
No que concerne à faixa
dos industriais e produtores de betão, importa igualmente uma adaptação de
mentalidades e posturas face à organização e
metodologia de abordagem do mercado, abdicando da atitude convencional e
hermética de procurar vender e colocar indiferenciadamente os
volumes de betão nas obras, para propor e disponibilizar soluções
estruturais e arquitectónicas em betão à medida das necessidades e da
concepção
projectada ou idealizada pelos clientes e projectistas, oferecendo
alternativas com recurso e presença do betão, desde a ossatura até ao
revestimento
final aparente do empreendimento, incluindo os próprios elementos de
mobiliário urbano.
Nesta ordem de ideias, a
adequada e acessível interacção entre produtores e projectistas e clientes
assume contornos fundamentais, que implicam
simultaneamente, não só uma actualização/evidenciação pragmática das
potencialidades e atributos inovadores do material betão e seus sucedâneos,
como também a ainda necessária desmistificação de imagens e conteúdos
obsoletos ou incompletos inerentes aos reais e significativos impactos
intrínsecos e extrínsecos, decorrentes da sua aplicação em fins ou elementos
arquitectónicos menos convencionais.
Ao nível dos materiais,
torna-se óbvio o investimento requerido na difusão de conhecimento e
investigação subjacente à utilização de materiais
constituintes e associados, formação de compósitos, tecnologias subjacentes
e articulação respectiva com as preocupações e a satisfação das metas
de sustentabilidade e ecoeficiência exigidas pelo mundo actual.
Se bem que a vontade e a
leitura que os utilizadores têm relativamente à escolha/aceitação do
material e da solução em betão seja expressa através dos
projectos e concepções arquitectónicas estabelecidos para cada obra, o que
conduz a que na maioria dos casos a posição do projectista possa ou deva
reflectir a opinião ou pretensão do cliente/utilizador final, verifica-se
que existem muitas situações em que persiste o cenário a que já aludimos
anteriormente, (a propósito da percepção da opinião pública sobre o betão,
em geral), que relega o material para uma posição e cotação qualitativa algo
depreciativa, que inibe os futuros utilizadores de se sentirem mais atraídos
ou com maior apetência para a sua escolha generalizada para as soluções
construtivas, sobretudo de cariz mais arquitectónico, ou no domínio dos
revestimentos e do mobiliário/equipamento urbanístico, social, recreativo,
paisagístico, etc., onde a gama de aplicações possíveis é extensa e
duplamente compensadora, quer do ponto de vista estético, quer económico, ou
ainda
ambiental.
Quanto à Administração
Pública e entidades responsáveis pelo Poder Local, urge corrigir uma
irrefutável desfocagem que persiste relativamente à
gestão do investimento público urbano e dos recursos naturais numa óptica de
desenvolvimento sustentável ajustada à realidade portuguesa.
Assim e face à disponibilidade das matérias-primas, condições climáticas,
fontes e recursos energéticos e ainda especificidades do parque imobiliário
nacional e respectivo património edificado, cultural e ambiental, o recurso
consistente à opção betão nas suas múltiplas vertentes, suportada por
uma selecção qualitativa de competências e idoneidade dos agentes
operacionais activos e pela garantia de uma fiscalização capaz e pedagógica
na
aferição do cumprimento dos regulamentos e normas aplicáveis, deveria ser um
medida lógica e prioritária estabelecida como prática corrente nos
programas de gestão daquelas entidades.
Por outro lado,
revelando-se o desenvolvimento sustentável um requisito fundamental para as
nossas comunidades, as valências do Betão e o seu
extraordinário potencial de contribuição para a sustentabilidade de
construção são argumentos que devem ser valorizados e aproveitados mais
adequadamente.
Nestes termos a
indústria de betão pronto pode e deve conceber e disponibilizar soluções
tecnológicas com betão que satisfaçam, quer os requisitos de
ordem física e estrutural estabelecidos no projecto, quer também as
componentes estética e funcional das edificações, personalizando-as e
garantindo
sempre que possível os objectivos de sustentabilidade associados ao seu bom
desempenho.
Fotos:
Mesa - Sessão da Manhã;
Eng. Jorge Pato;
Sr. Óscar Candas;
Arq. Gonçalo Byrne;
Eng. Rui Furtado;
Eng.ª Ângela Nunes;
Eng. David Amago.
Mesa - Sessão da Tarde;
Eng. Pedro San Payo;
Prof. Said Jalali;
Eng. David Amago;
Eng. José Carlos Marques |